O fim da abundância e o novo pragmatismo na tecnologia
A mudança no cenário econômico, com o fim do capital farto, em parte devido aos recentes aumentos de juros do Brasil, e a pressão real por lucratividade, forçou um pragmatismo que andava esquecido na liderança técnica:
A conversa deixou de ser sobre crescimento a qualquer custo e passou a ser sobre eficiência operacional e maturidade.
Todos já devem ter participado de algum projeto onde a decisão de aumentar um time foi tomada em menos tempo do que para discutir a arquitetura de um serviço. Era mais fácil e "rápido". Contratar era a resposta padrão para qualquer desafio de escala ou prazo. Hoje, essa abordagem simplesmente não funciona. A discussão agora é sobre otimizar o que já existe, melhorar a produtividade do desenvolvedor e investir em plataformas internas que gerem retorno mensurável. É um retorno à engenharia de software no que ela tem de mais fundamental:
Resolver problemas complexos com recursos finitos.
Duas mudanças que vão redefinir o papel do CTO nos próximos anos. A primeira é justamente essa: o fim do "dinheiro fácil". Líderes técnicos não podem mais simplesmente adicionar headcount para resolver problemas. Precisam priorizar eficiência e crescimento sustentável. A segunda é a aceleração da IA, que avança em um ritmo diferente de qualquer disrupção tecnológica anterior.
E aqui a coisa fica mais complicada do que parece. A promessa de produtividade da IA generativa é real, mas o impacto colateral preocupa. Existe um risco, real, que pouca gente discute com a seriedade necessária: o risco de a IA moldar a mentalidade de uma geração inteira de profissionais para que pensem de forma menos crítica. Se as tarefas de nível júnior são cada vez mais automatizadas:
Os números já mostram esse efeito. Um estudo da Stanford Digital Economy Lab identificou que o emprego para desenvolvedores de 22 a 25 anos caiu quase 20% do pico em 2022 até meados de 2025. A demanda por juniores diminuiu, enquanto a expectativa sobre os seniores só aumenta. O Developer Survey do Stack Overflow de 2025 mostra que 84% dos desenvolvedores já usam ferramentas de IA no processo de desenvolvimento. A adoção é massiva, mas a formação de base está encolhendo.
O desafio para quem lidera tecnologia é duplo:
- Integrar a IA de forma inteligente, como ferramenta que amplia a capacidade dos times, não como substituta do raciocínio.
- Repensar como cultivamos talento. Se a base da pirâmide está diminuindo, precisamos ser muito mais intencionais no desenvolvimento de carreira, no mentoring e na criação de desafios que forcem o pensamento crítico. Não dá para terceirizar a formação de engenheiros para um modelo de linguagem.
A tecnologia ainda é um negócio humano e as pessoas que fazem a diferença nas organizações são as que persistem quando a situação aperta, que mantêm a equipe unida quando o caminho fica difícil. Em um mundo cada vez mais remoto e automatizado, essa capacidade de construir conexão e liderar com empatia se torna um diferencial operacional, não apenas um discurso de RH.
O código é o meio. O problema a resolver ainda é humano. E a decisão de como alocar recursos, formar pessoas e adotar tecnologia continua sendo, antes de tudo, uma decisão de negócio.
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